segunda-feira, 9 de julho de 2012

Cachaça, poesia e nada de sexo


Cachaça, poesia e nada de sexo



Macedo foi um professor universitário que me acompanhava frequentemente nas minhas leituras fragmentárias. Chegou a ser uma espécie de ícone contra aquela ladainha acadêmica que permeava o espaço do colégio. Encontrávamos-nos com alguma frequência, sempre pra ler algo novo. De psicanálise e filosofia até Roberto Piva. Até que era bom, não nego, mas logo entendi as afinidades que nos aproximavam.
Em seu casebre tinha um piano, livros, maconha e bebida, mas raramente mulheres. Quase tudo que um perdido jovem, pretenso vagabundo, precisava pra elevar a sua vida à condição de coisa suportável.
Certa vez, decidimos fazer um encontro. Chamamos de “A orgia poética” ou coisa assim. A ideia era ler uns poemas, dar uns tragos e quem sabe, convencer aquelas neuróticas feministas a fazerem uma sacanagem com a gente. Acho que isso era o mais difícil. Ele chamou umas amigas bem gostosas, aliás. Umas já rodadas na vida, mas pouco experimentadas no sexo. Isso era tão claro e límpido quanto aquela garrafa de cachaça medíocre que ele decidiu servir e que só eu, tomei dois terços. Isso antes da leitura de textos.
Uns amigos e as mulheres chegaram por volta das dezenove horas e, já as vinte, a garrafa estava vazia, vazia; a melhor imagem especular da minha vida naquele período, quero dizer, a garrafa vazia. Naquele momento, depois de ter entornado os dois terços da breja vadia, olhei pra ela e pensei:
 - Sua puta, agora quem está vazia é você.
Ali percebi que a orgia estava, pelo menos da minha parte, com toda a sua potencia para acontecer.
A merda é que aqueles pequenos burgueses e burguesas, intelectuais de merda, falavam mais que bebiam. Pareciam manequins de intelectuais cuspindo um monte de merda que nem eles entendiam. Falavam superficialmente de tudo: Freud, Lacan, Marx, Baudelaire, blá, blá, blá....e eu pensando: – Caralho, essa porra não vai parar.
Senti náusea insuportável. Fui vomitar na pia da cozinha. Aproveitei e peguei uma cerveja. Ninguém deve ter percebido nada. A pia parecia até uma latrina de banheiro público, mas daqueles intransitáveis. Meu vômito era a coisa mais limpa e límpida daquele recinto.
Ainda pensando: Que porra de poemas esses putos vão querer ler? Não tenho espírito pra Drumond, Vinícius, Cabral, Baudelaire, Verlaine, Casimiro, irmãos Campos...todos eles pra mim são merdas. Nunca entenderam o que é poesia, pois a época não os favorecia. Aliás, imagino que a poesia dos períodos que antecederam o dos espíritos marginalizados da literatura eram apenas embriões de poesia. Poesia de verdade, com ‘P’ de Puta ou qualquer coisa que tenha importância literária, só foi possível muito recentemente, quando nos encontramos aterrorizados com a nossa condição! Mas enfim, sem filosofias de merda...deixemos isso para os filósofos.
Pra piorar tudo, começaram a falar de métrica, melodia,teoria do verso, teoria literária e outra merdas. Porra, o que esses putos e putas entendem de ritmo e harmonia? Tava me sentindo num asilo de velhos decadentes! Fodam-se a Métrica, o Ritmo, o verso. Essas porras estão em tudo; na fala, na escrita, no movimento, no ruído. Que porra de teóricos de merda. Já não aguentava mais aquela chatice (já disse isso). Mas era sério. Levantei do chão, fui ao centro da sala e disse:
 - Porra, qual vai ser? 
-Vieram aqui pra isso, seus pensadores de merda?! Pensem menos e vivam mais, porra!
-Que porra de marginalidade é essa.
 Olhei pra mais gostosa, que estava logo atrás de mim, com um vestidinho até os pés, ajoelhei-me na frente dela. Todos aqueles merdas me acompanhavam fixamente com caras de espantalhos de milharal. Talvez não acreditassem no que viam.
 Peguei nos seus dois pés e coloquei sobre meus ombros! Passei a mão nas suas coxas...peguei o resto da breja que estava ali e virei sobre a sua cabeça. Ela ficou sem reação, não conseguia dizer nada. Eu falei:
 - não diga nada, simplesmente, sinta. Sinta horror, ódio, raiva, o odor, sinta o que tiver de sentir, simplesmente, eu te batizo em nome de nada, de nada, dos espírito de nada, Amém...
 Dei uma sonora gargalhada. Naquele momento pensei: Esses putos vão, no mínimo, me isolar dentro do banheiro ou do quarto de empregada, no mínimo.
    Peguei um poema que tinha escrito antes de o início do bacanal sem sexo e comecei a ler...
Pra minha felicidade, ela estava acompanhada de um merdinha, professor de artes da UFMG. Que ficou puto, pois ela começava a esboçar um sorrido com uma leveza que acabou contagiando todos, menos o merdinha. A essa altura estávamos todos devidamente alcoolizados.
Qual o teu nome? – perguntei.
Lívia- respondeu ela.
Eu disse: - Não esqueça isso! Jamais!
-Impossível! Retrucou.
Foi uma senhora exclamação, com um lindo e claro sorriso nos olhos!
Macedo finalmente acordou daquela hibernação rotineira, colocou um jazz no som, apagou as luzes e acendeu somente um abajur de luz laranja. A festa tinha finalmente começado; baseados que pareciam troncos de árvore rolando!
Com a cachaça e meu cigarro de palha retomei o poema. Os burgueses intelectuais aplaudiram... Ainda tive que ouvir:
 - Cara, foi a melhor performace que presenciei nos últimos anos! Você é demais! E que poema foda! Gostei bastante!
 Fiquei com uma vontade quase que irresistível de socar a cara daquele aristocrata de merda! Performace? Que porra é essa?!
Mas consegui silenciar e fui pegar outra cerveja...Lembrei da paz dos Budas. Chega de porra de confusão!
Chamei a Lívia pra um canto da varanda. Ficamos ali até a alvorada. Falávamos pouco, mas nos compreendíamos somente no toque e no olhar. Lemos alguns poemas sérios juntos, nos abraçamos frequentemente e concordamos que estava sendo maravilhoso estar na companhia do outro. Nada rolou. Somente abraços, sorrisos e conversas irrelevantes. Mas foi uma noite inesquecível; pelo menos pra ela.

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