terça-feira, 12 de outubro de 2010

Desabafo

Desabafo


O grande nó do libertário progressista é admitir, conviver, aceitar uma diversidade corrosiva, degenerescente. Os representantes 'psicóticos' do aquem-mundo devem ou não, respeitando a liberdade que nós tanto preconizamos serem permitidos a ‘abrirem suas bocas’ e proferirem as Verdades Celestes que se combinam, ou melhor, causam – com todo rigor e sentido de causalidade, aquela dos filósofos -, necessariamente, os atrasos que combatemos?
Como ouvir o crente, o religioso-fascista – não o crente amoroso e sincero que busca simplesmente o conforto para suas lacunas existenciais --, que forma uma parcela significativa do eleitorado brasileiro, com a imparcialidade e tranqüilidade de um monge zen? A democracia parece esconder, auxiliar a esconder, um dos seus grandes inimigos: a diversidade pode ser perigosa quando, associado a ela, tem-se alguém sem preparo, que do alto da sua autoridade religiosa ou moral, imagina ter condições de discorrer sobre os assuntos que são, aparentemente, menos exigentes de um saber técnico, mas que por isso mesmo são os que pedem um maior aprofundamento e cuidado nos seus modos de abordagem de seus objetos. Os assuntos e conversas cotidianas, por se tornarem cotidianas, ganham uma relevância e importância de um objeto da ciência, portanto, não podem ser negligenciados por alguém que tem, sobretudo, um compromisso com a investigação da ‘verdade’. Ou nos calamos, imaginando que cultivamos uma qualidade superior estóica, a nobre imparcialidade inatividade cética, ou entramos no campo de batalha da ‘retórica-superior’ malafaica e nos confrontamos contra as práticas discursivas que condenam o homossexualismo, a opção pelo aborto (sem uma discussão prévia séria da questão), favorecem o racismo e o preconceito religioso. Quando nos omitimos e cerramos nossos ouvidos para esse tipo de fala, ela captura outros ouvidos com a sua proposta redentora perigosa. Os que se esquivam são, com alguma freqüência, os que têm condições de combatê-las.
A democracia deve ser a da qualidade, da civilidade, de uma real e pacífica convivência que não ameaça a bem-estar total de um país. Aquilo que há de pior, menos civilizado, de atrasado deve ser discriminado, separado e combatido, às vezes sutilmente, às vezes, declaradamente, como é o caso. É preciso saber distinguir aquilo que merece a credencial da liberdade daquilo que não merece. Não há proto-fascismo em tais declarações. O que há é uma postura epistemológica discriminatória baseada no imperativo categórico Kantiano, a favor da democracia, liberdade organizada, não – caótica, sem dogmas e laica:
“Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza”
Não precisamos temer a aproximação perigosa de uma espécie de integralismo quando pretendemos ser somente mais rigorosos. Estamos longe disso, apesar de todo aparato midiático nos fazer pensar o contrário. A mídia parece ter produzido um deslocamento que gera péssimas conseqüências para o país. Ela mesma não opera a censura quando ‘edita’ suas matérias?
Eu não recusaria a acreditar que senhores como Ali Kamel, Boris ‘Integralista’ Casoy, ou os do principado Marinho, ao receberem os trabalhos diários de seus colegas em suas mesas, ‘editam’, ou melhor, sendo mais transparente, censuram conteúdos que divergem das intenções maiores de seus veículos associados à grande burguesia parasita desse país.
Que grande momento ‘democrático’ é uma eleição. Não porque vamos às urnas para elegermos nossos candidatos, mas, principalmente, porque as máscaras caem, ou melhor, mostram-se como superfícies poliméricas coladas com toda sua má qualidade plástica nos rostos das velhas oligarquias industriárias, do novo agrobusiness, latifundiários técnico-modernos, ideologicamente retrógradas e dos lobos religiosos que obolem a protocooperação e dão continuidade ao amensalismo burguês corrosivo que imprimem as coordenadas da curva da nossa história.
Temo os religiosos, temo o PSDB, PMDB, DEM e todas as representações imaginárias que esses significantes carregam. Temo também os setores conservadores das igrejas, evangélica e católica, escondidos atrás dos pseudo-bons-propósitos que propõem e proferem para aglutinarem e estabelecerem nos espaços ‘sagrados’ o seu governo pessoal do povo historicamente condenado nesse país.
Talvez o programa do PT, com a Dilma, esteja longe de contemplar nossas aspirações mais profundas, por um país efetivamente democrático, civilizado e que saia da ‘pré-história’, mas há um fato que não se contesta: a eleição de Lula foi um ponto de inflexão positivo na história deste país. Talvez este seja um fato de extrema relevância: o significado quase inapreensível de uma candidatura que sem dúvida mudou a cara desse país e que só fará sentido no tempo.
Declaro-me a favor de Dilma, contra Serra; ansioso e apavorado pela data mais decisiva do ano. Continuemos, a passos curtos, mas continuemos. Por uma democracia livre, laica, a favor das minorias e, sobretudo, da liberdade efetiva não mascarada!

sábado, 29 de maio de 2010

“Como nada sou além de Filosofia e não posso e não quero ser outra coisa além disso, meu emprego nunca se apossará de mim”.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O dia começou cedo - talvez a noite ainda não tenha terminado. Minhas recordações decidem ganhar alguma vida; tentam justificar a minha disposição estranha e túmida, minha visão enegrecida ou acinzentada, não está claro. Já há algum tempo tenho frequentado as extremidades, os cantos da minha casa cheia. As vozes nos corredores, o som da chuva no telhado, os gritos desesperados e silenciosos dos meus vizinhos que moram logo alí, bem pertinho, onde a natureza recentemente reclamou seus espaços, nada fazem além de preenchê-los, os espaços. E essa materialidade, que no mesmo espaço reside, evidencia o lugar estranho, imaterial, de um outro tão presente, ausente, mas que só se manifesta no vazio, pois é o próprio Vazio, que poucos conseguem sentir: O lugar particular de uma fraqueza, de um falso ânimo, de uma poesia sem razão, o lugar sem razão. Sem clareza. Ela não é esperada porque o cinza é um cinza escuro, cinza-negro, que turva a visão e que somente subtamente, com um alto descuido da razão, se torna clara, traz à tona o colorido da vida, que a mesma razão, com todas as suas armadilhas perversas, faz questão de esconder. Eis o momento mais instável e mais aguardado. Nele se respira e só nele cabe uma lembrança positiva e afirmativa, franca. Ele produz sentido apesar de toda sua fugacidade. Ele brinda a luz, a luz da desrazão. Entre os pensamentos e as palavras o cheiro do café recupera minha atenção. Ao final da primeira terça parte do dia alguma claridade já começa a penetrar nos poros das paredes brancas da sala. Essa mesma claridade natural se artificializa à medida que se amplia, pois quanto mais se expande mais anuncia o fim do dia.
Certa vez percebi os enganhos inevitáveis de quem fala. Já não pretendo mais ser tão preciso, honesto, luminoso...não é possível. Decidi pelo silêncio, fui até aonde podia, mas logo percebi o limite das minhas escolhas. Ele é extenso, para aqueles que assim crêem, mas se esgota no pensamento. Não se pode escolher deixar de pensar; ainda não conheci alguém que o tenha feito. Eis aí um problema de relevância para os Filósofos. Escolho comer, levantar-me, observar, o que observo, escolho o que falo, escolho até o que penso, mas não posso deixar de pensar. Onde reside minha liberdade? Sempre a encontrava ao buscá-la, mas no mais desesperado dos tempos houve esquiva. No mais alto grau de necessidade é que a liberdade se torna livre e escorre, se torna lodo, liberdade oleosa, que não se mistura justamente pela sua apolaridade. Já não milita mais a meu favor e revela-se como grande ilusionista, que a todo tempo encobre.
Levantar-me-ei agora, tomarei meu café enquanto ouço as portas no corredor abrirem. O cheiro da manhã é tão intenso. Os ecos dos passos nas ruas, dos motores dos ônibus; dos latidos de cães desesperados que anunciam um novo dia. O novo dia começou à meia noite. À meia noite começa um novo dia. O meu dia, sim, o meu dia, logo termina, pois a meia noite se aproxima. Até lá permanecerei deitado, sem compromisso com um tempo lógico, pois se afirmo, querendo denunciar toda contradição da fala que dizer, falar, e até pensar é mentir , justifico, de antemão, alguma reclamação por falta de clareza.