Quem tem consciência pra se ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
Os poemas que escrevo, por
medíocres que sejam, são sempre um produto desesperado de um equilibrismo sutil
na tênue corda bamba suspensa no abismo que é
minha existência; consequências de um desenfreado anarquismo sem contensão.
Admito, não é possível voltar ou
parar. Cairia! Daqui, só a loucura ou a morte, pois são, inevitavelmente, obras com um risco irremediável, de uma experiência levada até o extremo, até o ponto em que eu não possa mais continuar.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
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Nietzsche, no quarto
parágrafo da primeira dissertação da Genealogia da Moral sugere que o
preconceito democrático seria o último avatar desse processo de apagamento,
esquecimento do que está na origem: a instauração soberana.
Depois de olhar por alguns minutos a
imagem de L'Origine du monde, de Gustave Courbet, permito-me pensar que talvez
a questão da soberania seja mais uma dimensão e menos causa dos preconceitos
gerais. A imagem de Courbet deixa clara a proximidade entre o que o artista
chama de origem - nesse caso uma origem simbólica - e os orifícios excretores.
Parece-me haver uma relação intrigante e produtora de mal estar entre aquilo
que nos origina, edifica, constitui e nossos excrementos. Isso nos dificulta a
nos pensar, pois nos pensar, nesse caso, seria buscar uma origem que,
fatalmente, poria os excrementos em evidência: tudo que, em nossa história
particular, procuramos dispensar com um esforço incalculável, cotidianamente.
Seria então possível pensar em um subproduto 'excremental' onde os preconcentos
seriam lugar onde estariam armazenadas veladamente as partes mais rejeitáveis
daquilo que nos constitui enquanto sujeitos.
“Pois a lógica anatômica do homem moderno é jamais ter podido
viver, nem pensar em viver, a não ser como possesso.” Assim termina o Post-Scriptum
à introdução do texto Van Gogh, O Suicidado da Sociedade, enviado ao editor por
Artaud, por volta de 10 de março de 1947, como um complemento ao texto
original. Há uma relação óbvia entre o fato de um sujeito não tomar posse da
sua existência, sempre delegá-la a um Outro e o temor da emergência do real,
colocando-o frente a um afeto insuportável, a angústia. Mas é a partir da
angústia que os excrementos podem ser expelidos, pois é nela que se denuncia um
vazio originário que opera, no mínimo, como depositório desses mesmos
excrementos. Mas cabe lembrar: os excrementos podem ser expelidos em seus
excessos, mas sempre deixarão seus odores insuportáveis e restos impregnando as
paredes da nossa constituição subjetiva.
a poesia vê melhor
eis o espírito do fogo
minha mão
dança
no corpo do garoto lunar
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teu cu fora da lei
teu pau infurecido
alegria de anjo
nas estradas
do prazer
língua dos espíritos índios
cogumelos profetizando
anarquia & delírio
boca no meu pé
boca no meu saco
poesia é desatino abrindo a Noite
no excesso do Dia
Eu caminhava pelas aléias olhando com alucinada ternura
as meninas na grande farra dos canteiros de
insetos baratinados
Teu canto insatisfeito semeava o antigo clamor dos
piratas trucidados
Enquanto o mundo de formas enigmáticas se desnudava
para mim, em leves mazurcas