Desabafo
O grande nó do libertário progressista é admitir, conviver, aceitar uma diversidade corrosiva, degenerescente. Os representantes 'psicóticos' do aquem-mundo devem ou não, respeitando a liberdade que nós tanto preconizamos serem permitidos a ‘abrirem suas bocas’ e proferirem as Verdades Celestes que se combinam, ou melhor, causam – com todo rigor e sentido de causalidade, aquela dos filósofos -, necessariamente, os atrasos que combatemos?
Como ouvir o crente, o religioso-fascista – não o crente amoroso e sincero que busca simplesmente o conforto para suas lacunas existenciais --, que forma uma parcela significativa do eleitorado brasileiro, com a imparcialidade e tranqüilidade de um monge zen? A democracia parece esconder, auxiliar a esconder, um dos seus grandes inimigos: a diversidade pode ser perigosa quando, associado a ela, tem-se alguém sem preparo, que do alto da sua autoridade religiosa ou moral, imagina ter condições de discorrer sobre os assuntos que são, aparentemente, menos exigentes de um saber técnico, mas que por isso mesmo são os que pedem um maior aprofundamento e cuidado nos seus modos de abordagem de seus objetos. Os assuntos e conversas cotidianas, por se tornarem cotidianas, ganham uma relevância e importância de um objeto da ciência, portanto, não podem ser negligenciados por alguém que tem, sobretudo, um compromisso com a investigação da ‘verdade’. Ou nos calamos, imaginando que cultivamos uma qualidade superior estóica, a nobre imparcialidade inatividade cética, ou entramos no campo de batalha da ‘retórica-superior’ malafaica e nos confrontamos contra as práticas discursivas que condenam o homossexualismo, a opção pelo aborto (sem uma discussão prévia séria da questão), favorecem o racismo e o preconceito religioso. Quando nos omitimos e cerramos nossos ouvidos para esse tipo de fala, ela captura outros ouvidos com a sua proposta redentora perigosa. Os que se esquivam são, com alguma freqüência, os que têm condições de combatê-las.
A democracia deve ser a da qualidade, da civilidade, de uma real e pacífica convivência que não ameaça a bem-estar total de um país. Aquilo que há de pior, menos civilizado, de atrasado deve ser discriminado, separado e combatido, às vezes sutilmente, às vezes, declaradamente, como é o caso. É preciso saber distinguir aquilo que merece a credencial da liberdade daquilo que não merece. Não há proto-fascismo em tais declarações. O que há é uma postura epistemológica discriminatória baseada no imperativo categórico Kantiano, a favor da democracia, liberdade organizada, não – caótica, sem dogmas e laica:
“Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza”
Não precisamos temer a aproximação perigosa de uma espécie de integralismo quando pretendemos ser somente mais rigorosos. Estamos longe disso, apesar de todo aparato midiático nos fazer pensar o contrário. A mídia parece ter produzido um deslocamento que gera péssimas conseqüências para o país. Ela mesma não opera a censura quando ‘edita’ suas matérias?
Eu não recusaria a acreditar que senhores como Ali Kamel, Boris ‘Integralista’ Casoy, ou os do principado Marinho, ao receberem os trabalhos diários de seus colegas em suas mesas, ‘editam’, ou melhor, sendo mais transparente, censuram conteúdos que divergem das intenções maiores de seus veículos associados à grande burguesia parasita desse país.
Que grande momento ‘democrático’ é uma eleição. Não porque vamos às urnas para elegermos nossos candidatos, mas, principalmente, porque as máscaras caem, ou melhor, mostram-se como superfícies poliméricas coladas com toda sua má qualidade plástica nos rostos das velhas oligarquias industriárias, do novo agrobusiness, latifundiários técnico-modernos, ideologicamente retrógradas e dos lobos religiosos que obolem a protocooperação e dão continuidade ao amensalismo burguês corrosivo que imprimem as coordenadas da curva da nossa história.
Temo os religiosos, temo o PSDB, PMDB, DEM e todas as representações imaginárias que esses significantes carregam. Temo também os setores conservadores das igrejas, evangélica e católica, escondidos atrás dos pseudo-bons-propósitos que propõem e proferem para aglutinarem e estabelecerem nos espaços ‘sagrados’ o seu governo pessoal do povo historicamente condenado nesse país.
Talvez o programa do PT, com a Dilma, esteja longe de contemplar nossas aspirações mais profundas, por um país efetivamente democrático, civilizado e que saia da ‘pré-história’, mas há um fato que não se contesta: a eleição de Lula foi um ponto de inflexão positivo na história deste país. Talvez este seja um fato de extrema relevância: o significado quase inapreensível de uma candidatura que sem dúvida mudou a cara desse país e que só fará sentido no tempo.
Declaro-me a favor de Dilma, contra Serra; ansioso e apavorado pela data mais decisiva do ano. Continuemos, a passos curtos, mas continuemos. Por uma democracia livre, laica, a favor das minorias e, sobretudo, da liberdade efetiva não mascarada!