"Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno." (Antonin Artaud)
sábado, 29 de maio de 2010
quinta-feira, 27 de maio de 2010
O dia começou cedo - talvez a noite ainda não tenha terminado. Minhas recordações decidem ganhar alguma vida; tentam justificar a minha disposição estranha e túmida, minha visão enegrecida ou acinzentada, não está claro. Já há algum tempo tenho frequentado as extremidades, os cantos da minha casa cheia. As vozes nos corredores, o som da chuva no telhado, os gritos desesperados e silenciosos dos meus vizinhos que moram logo alí, bem pertinho, onde a natureza recentemente reclamou seus espaços, nada fazem além de preenchê-los, os espaços. E essa materialidade, que no mesmo espaço reside, evidencia o lugar estranho, imaterial, de um outro tão presente, ausente, mas que só se manifesta no vazio, pois é o próprio Vazio, que poucos conseguem sentir: O lugar particular de uma fraqueza, de um falso ânimo, de uma poesia sem razão, o lugar sem razão. Sem clareza. Ela não é esperada porque o cinza é um cinza escuro, cinza-negro, que turva a visão e que somente subtamente, com um alto descuido da razão, se torna clara, traz à tona o colorido da vida, que a mesma razão, com todas as suas armadilhas perversas, faz questão de esconder. Eis o momento mais instável e mais aguardado. Nele se respira e só nele cabe uma lembrança positiva e afirmativa, franca. Ele produz sentido apesar de toda sua fugacidade. Ele brinda a luz, a luz da desrazão. Entre os pensamentos e as palavras o cheiro do café recupera minha atenção. Ao final da primeira terça parte do dia alguma claridade já começa a penetrar nos poros das paredes brancas da sala. Essa mesma claridade natural se artificializa à medida que se amplia, pois quanto mais se expande mais anuncia o fim do dia.
Certa vez percebi os enganhos inevitáveis de quem fala. Já não pretendo mais ser tão preciso, honesto, luminoso...não é possível. Decidi pelo silêncio, fui até aonde podia, mas logo percebi o limite das minhas escolhas. Ele é extenso, para aqueles que assim crêem, mas se esgota no pensamento. Não se pode escolher deixar de pensar; ainda não conheci alguém que o tenha feito. Eis aí um problema de relevância para os Filósofos. Escolho comer, levantar-me, observar, o que observo, escolho o que falo, escolho até o que penso, mas não posso deixar de pensar. Onde reside minha liberdade? Sempre a encontrava ao buscá-la, mas no mais desesperado dos tempos houve esquiva. No mais alto grau de necessidade é que a liberdade se torna livre e escorre, se torna lodo, liberdade oleosa, que não se mistura justamente pela sua apolaridade. Já não milita mais a meu favor e revela-se como grande ilusionista, que a todo tempo encobre.
Certa vez percebi os enganhos inevitáveis de quem fala. Já não pretendo mais ser tão preciso, honesto, luminoso...não é possível. Decidi pelo silêncio, fui até aonde podia, mas logo percebi o limite das minhas escolhas. Ele é extenso, para aqueles que assim crêem, mas se esgota no pensamento. Não se pode escolher deixar de pensar; ainda não conheci alguém que o tenha feito. Eis aí um problema de relevância para os Filósofos. Escolho comer, levantar-me, observar, o que observo, escolho o que falo, escolho até o que penso, mas não posso deixar de pensar. Onde reside minha liberdade? Sempre a encontrava ao buscá-la, mas no mais desesperado dos tempos houve esquiva. No mais alto grau de necessidade é que a liberdade se torna livre e escorre, se torna lodo, liberdade oleosa, que não se mistura justamente pela sua apolaridade. Já não milita mais a meu favor e revela-se como grande ilusionista, que a todo tempo encobre.
Levantar-me-ei agora, tomarei meu café enquanto ouço as portas no corredor abrirem. O cheiro da manhã é tão intenso. Os ecos dos passos nas ruas, dos motores dos ônibus; dos latidos de cães desesperados que anunciam um novo dia. O novo dia começou à meia noite. À meia noite começa um novo dia. O meu dia, sim, o meu dia, logo termina, pois a meia noite se aproxima. Até lá permanecerei deitado, sem compromisso com um tempo lógico, pois se afirmo, querendo denunciar toda contradição da fala que dizer, falar, e até pensar é mentir , justifico, de antemão, alguma reclamação por falta de clareza.
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