Nietzsche, no quarto
parágrafo da primeira dissertação da Genealogia da Moral sugere que o
preconceito democrático seria o último avatar desse processo de apagamento,
esquecimento do que está na origem: a instauração soberana.
Depois de olhar por alguns minutos a
imagem de L'Origine du monde, de Gustave Courbet, permito-me pensar que talvez
a questão da soberania seja mais uma dimensão e menos causa dos preconceitos
gerais. A imagem de Courbet deixa clara a proximidade entre o que o artista
chama de origem - nesse caso uma origem simbólica - e os orifícios excretores.
Parece-me haver uma relação intrigante e produtora de mal estar entre aquilo
que nos origina, edifica, constitui e nossos excrementos. Isso nos dificulta a
nos pensar, pois nos pensar, nesse caso, seria buscar uma origem que,
fatalmente, poria os excrementos em evidência: tudo que, em nossa história
particular, procuramos dispensar com um esforço incalculável, cotidianamente.
Seria então possível pensar em um subproduto 'excremental' onde os preconcentos
seriam lugar onde estariam armazenadas veladamente as partes mais rejeitáveis
daquilo que nos constitui enquanto sujeitos.
“Pois a lógica anatômica do homem moderno é jamais ter podido
viver, nem pensar em viver, a não ser como possesso.” Assim termina o Post-Scriptum
à introdução do texto Van Gogh, O Suicidado da Sociedade, enviado ao editor por
Artaud, por volta de 10 de março de 1947, como um complemento ao texto
original. Há uma relação óbvia entre o fato de um sujeito não tomar posse da
sua existência, sempre delegá-la a um Outro e o temor da emergência do real,
colocando-o frente a um afeto insuportável, a angústia. Mas é a partir da
angústia que os excrementos podem ser expelidos, pois é nela que se denuncia um
vazio originário que opera, no mínimo, como depositório desses mesmos
excrementos. Mas cabe lembrar: os excrementos podem ser expelidos em seus
excessos, mas sempre deixarão seus odores insuportáveis e restos impregnando as
paredes da nossa constituição subjetiva.

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